Autismo para além dos critérios de diagnóstico
- Patricia Pereira

- Dec 30, 2025
- 7 min read

Antes de mais tenho de reconhecer que tenho uma espécie de conflito aberto para com os critérios de diagnóstico de autismo. Se por um lado os acredito importantes para identificar o funcionamento autista, por outro lado, eles descrevem um autismo através de viés cultural e permitem a nidificação de diversos preconceitos. Falta-lhes a sensibilidade necessária para descrever o verdadeiro funcionamento autista. Embora úteis, falham em descrever a verdadeira experiência autista, ou seja as suas características internas.
Para mim, os critérios de diagnóstico são como descrever um programa informático, sem nunca olhar para o seu código. Sabemos o que faz, mas não sabemos porque o faz.
Caro leitor, tenho uma dessas mentes que adora desafios e que adora fazer associações, pelo que já lá vão alguns anos em que tento encontrar quais são essas mesmas características do funcionamento autista. Para o fazer, li mais do que gostaria de admitir e escutei atentamente cada pessoa autista que tive o prazer de encontrar. Gostaria de lhe apresentar aqui um conjunto de características que acredito que todas as pessoas autistas sem deficiência intelectual apresentam, mesmo que em diferentes intensidade.
Ressalvo que cada uma destas características não deve ser entendida como boa ou má, mas como uma característica que depende do ambiente para demonstrar a sua potencialidade. Num ambiente adaptado permitem um desenvolvimento óptimo, mas num ambiente pouco adaptado serão sinónimo de dificuldade.
Vamos lá ver algumas dessas características.
Paixão intensa

Os critérios de autismo falam de comportamentos restritos e repetitivos. Todavia, eu vejo pessoas apaixonadas por um tema ou domínio. Claro está que esta paixão intensa pode por vezes ser uma barreira à socialização com pessoas que não se interessam pelo mesmo tema ou domínio. Todavia, quando duas pessoas apaixonadas pelo mesmo tema (autistas ou não) encontram-se a conversa é deliciosa e fluída. A paixão intensa que os autistas sentem por temas ou sensações é um verdadeiro motor de socialização, remédio para a ansiedade e construtor de auto-eficácia. Conheço inúmeras pessoas autistas que são verdadeiros especialistas no tema, pois a sua paixão por esse tema torna-os ávidos por conhecimento. Afinal, basta ver o perfil da maioria dos cientistas para perceber que muitos deles têm características muito próximas do autismo e todos beneficiamos das suas descobertas.
Memória emocional

O processamento emocional da pessoa autista é claramente diferente, sendo que a maioria das pessoas autistas têm dificuldade em nomear as suas emoções no momento em que elas acontecem. Independentemente dessa questão são extremamente sensíveis aos seus efeitos. Tenho reparado que as pessoas autistas têm uma excelente memória para situações, informações e pessoas que suscitam emoções fortes, quer elas sejam positivas ou negativas. Assim sendo, as pessoas autistas podem recordar algo com um detalhe extraordinário, quer seja algo que as fez ficar muito contente (ex: coisas que foi descobrindo motivado pela sua paixão) ou algo que a assustou (ex: alguém que gritou com elas). Tenho reparado que esta memória emocional pode “apegar-se” a pequenos elementos e que esses elementos podem suscitar a mesma emoção que foi vivida pela primeira vez. Creio que isto seja um motor interessante para a criação de fobias e pela qual a simples exposição repetida ao elemento fóbico pode não ser interessante. A exposição, em vez de ver a sua activação emocional decrescer, parece evocar a mesma emoção que foi vivida pela primeira vez. Por outro lado, esta memória altamente emocional é também o motor de muita aprendizagem.
Pensamento associativo

As pessoas autistas tendem a pegar em partes de ideias, de conceitos, de situações ou de informação e criar novas ideias. Pode-se dizer que criam conceitos híbridos, em que duas (ou mais) ideias associam-se para formar uma nova ideia. Este mecanismo é extremamente visível quando vemos uma pessoa autista criar novas palavras para descrever conceitos. Muitas pessoas autistas adoram brincar com palavras, imagens e conceitos teóricos de forma a os fazer evoluir. Claro está que o problema desta tendência associativa é que a pessoa autista poderá ter dificuldade em explicar o seu processo de pensamento.
Atenção ao detalhe

A atenção ao detalhe é uma característica extremamente mediática no que diz respeito ao autismo. Baseada no funcionamento monotropista da pessoa autista, ela tem uma percepção profunda dos detalhes. Quer isto dizer que a pessoa autista será capaz de recordar ou reparar em detalhes aos quais as outras pessoas não dão relevância ou não reparam. Todavia, esta capacidade altamente necessária para um trabalho de precisão, pode ser uma entrave quando o ambiente premeia resultados menos precisos ou quando esta característica impede a pessoa autista de ver a situação global. Por exemplo, em situações sociais, as pessoas autistas podem estar atentas a micro movimentos do seu interlocutor (ex: movimento da sobrancelha) mas terem dificuldade em ver o comportamento da pessoa na sua globalidade.
Atenção intensa

O monotropismo do qual falava é igualmente um dos responsáveis pela capacidade autista de focar-se de forma intensa em algo. A pessoa autista é capaz de focar-se de uma forma tão intensa que pode esquecer o mundo à volta ou as suas próprias sensações corporais. Dizem as más línguas que está preso no seu mundo, mas a verdade é que a pessoa autista está num estado de flow. Um estado de flow é um estado de atenção optimal em que as exigências da atividade e as competências da pessoa estão em sintonia e portanto a pessoa perde noção do tempo. Este estado é descrito na literatura como um estado optimal mas raro, embora na população autista ele seja extremamente frequente. Este estado é responsável de uma enorme satisfação quando a pessoa autista e favoreçam a repetição da atividade que o provoca. Contudo, este estado também pode ter efeitos negativos. A atenção intensa ou estado de flow podem diminuir a atenção dada a necessidades corporais (ex: comer, dormir ou ir à casa de banho) ou criar frustração quando a pessoa não pode dedicar-se à sua paixão ou é interrompida.
Necessidade de estrutura

Os critérios de autismo falam de rigidez, eu falo de necessidade de estrutura. As pessoas autistas precisam de previsibilidade para funcionarem de forma optimal. A previsibilidade de uma rotina ajuda a gerir o nível de ansiedade e reduz a quantidade de energia necessária para assimilar todos os detalhes que constituem o mundo caótico em que vivemos. Esta necessidade de estrutura é um elemento preditor de sucesso quando a pessoa autista deve realizar atividades estruturadas (por vezes repetitivas), pois o seu cérebro naturalmente procura esta paz padronizada. Todavia, as mudanças e os imprevisto (externos) são extremamente difíceis a viver porque criam caos e impedem a pessoa autista de ter previsibilidade. Não se trata portanto de rigidez, mas de ser capaz de prever o que acontece e as exigências do ambiente. Pequeno detalhe, esta necessidade de previsibilidade é ainda maior quanto mais atenção a detalhe (ou ansiedade) existir.
Tratamento sequencial

Face a uma árvore, a maior parte das pessoas vê uma árvore. A pessoa autista vê os traços das folhas, as folhas, os ramos, as flores, os ramos, as irregularidades, o tronco, os traços de luz e de sombra, e todas as outras informações sensoriais de forma separada, tendo que associar (quase) manualmente todas estas informações para ver a árvore na sua globalidade. Chama-se a isto um processamento Bottom-up em que a pessoa autista processa primeiro os detalhes e só depois os associa para criar a imagem global. O nível de associação dependerá de diversas características. Claramente esta característica está associada a uma enorme atenção ao detalhe e precisão, mas torna o processamento lento e dificulta a generalização da informação.
Compreensão factual

A pessoa autista comunica (maioritariamente) de forma directa, baseada em factos e sem implícitos. Por esta razão, digo sempre que a pessoa autista apresenta uma comunicação factual. Esta forma de comunicar está claramente associada a precisão e clareza. Todavia, esta exactitude é muitas vezes considerada rude, demasiado directa ou insensível.
Processamento sensorial

O cérebro autista é um cérebro sensorial sendo que recolhe em média mais 42 % de informação sensorial do que um cérebro não autista. Esta percepção aumentada do mundo que os rodeia potencia uma percepção completamente diferente das sensações e situações que todas as pessoas experienciam. Naturalmente, este funcionamento está associado a uma maior diversidade de informação recolhida, mas também a uma maior propensão à saturação. No caso do autismo, a história fica ainda mais complexa, pois existem sentidos que recolhem mais informação (ex: audição, visão) e sentidos que recolhem menos informação (ex: perceber as sensações do próprio corpo) do que a pessoa não autista. Por último, este ratio pode flutuar ao longo do tempo.
Estilo de pensamento

O raciocínio alternativo, é para mim uma supra característica, pois todas as anteriores serão coordenadas pelo tipo de raciocínio da pessoa autista. Em muitos livros e artigos li constantemente que a pessoa autista é visual e pensa em imagens. Todavia, isso parece-me contrario à minha experiência clínica. Confesso que estava confusa até ler o livro Autistic Brain de Temple Grandin em que ela postula a ideia da pessoa autista pode ter diferentes tipos de raciocínio. Segundo ela, a pessoa autista pode ter pensar em imagens, em padrões, com informação áudio-verbal ou ser associativa. Este conceito falou-me imediatamente, principalmente porque cada tipo de pensamento está associado com diversas forças e dificuldades. Por exemplo, uma pessoa que apenas compreende o mundo através de imagens (imaginem pensar usando apenas o google imagens) poderá ter uma memória visual altamente desenvolvida, mas ter dificuldade em generalizar a informação ou organizá-la. Todas as características mencionadas anteriormente poderão assim estar dependentes do estilo de pensamento para se expressarem.
Na verdade abordo esta questão das características do funcionamento autista visto por dentro, como uma forma de militarismo para que a comunidade científica elabore um conjunto de critérios para identificar o autismo no seu estado mais puro. Permitindo assim aos profissionais identificar o “código” por detrás do autismo e não apenas a sua interface. Creio que isto será interessante para perceber mesmo as pessoas que apresentam comportamentos de camuflagem refinados.
Gostaria apenas de terminar com uma referência ao livro Missão Autismo, no qual abordo estas mesmas características sob a forma de história. Entretanto, vou continuar a escrever o meu novo livro sobre autismo, totalmente em português. Obrigado por me acompanhares nesta jornada.



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